Custo de ocupação é, na prática, a “taxa” que sua operação paga para existir naquele endereço (ou naquele CD), somando aluguel e encargos relevantes. O problema não é ter custo é ter custo fora do mercado e descobrir isso tarde, quando o contrato já está travando margem, expansão e caixa.
Em portfólios multiunidade (varejo, last-mile, telecom, indústria, serviços), a diferença entre “dentro do mercado” e “fora do mercado” raramente está em um contrato isolado. Está no efeito portfólio: dezenas/centenas de unidades com reajustes, renovações e condições que se afastaram do comparativo local. A boa notícia: dá para diagnosticar com método, estimar impacto e criar uma fila de renegociação orientada a ROI sem virar um projeto infinito.
1) O que é custo de ocupação (e o que entra na conta)

A definição depende do seu negócio, mas para gestão executiva de portfólio, recomendo separar em dois níveis:
Nível 1 — “Custo de ocupação contratual” (comparável e auditável)
- Aluguel mínimo (R$/mês)
- Aluguel variável (quando aplicável)
- Encargos contratuais recorrentes que você paga por ocupar (ex.: condomínio e IPTU, se são repassados)
Nível 2 — “Custo de ocupação total” (para decisão econômica)
- Nível 1 + custos indiretos e operacionais que mudam por localização (ex.: segurança, manutenção, adaptações, utilidades — depende do que você quer otimizar)
Para renegociação, o Nível 1 é o mais importante porque é o que “vira contrato” e se defende tecnicamente.
Métrica base recomendada:
- R$/m² (aluguel e/ou ocupação) para lojas, escritórios e galpões
- % da receita para operações com aluguel variável (shoppings, certas operações de varejo)
2) Market-to-market (M2M): o que é e por que ele revela contratos fora do mercado
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Market-to-market é o exercício de comparar o preço efetivo do seu contrato (ex.: aluguel por m²) com um referencial de mercado equivalente, ajustado por:
- tipologia do imóvel (rua, shopping, condomínio logístico, BTS etc.)
- microrregião (não “a cidade inteira”)
- padrão/estado do ponto
- prazo e condições (carência, escalonamento, garantias, CAPEX, SLA de condomínio etc.)
Quando o seu aluguel efetivo está consistentemente acima do referencial, você tem um gap de mercado. Esse gap é o “combustível” de uma renegociação bem justificada.
Observação prática: em portfólios grandes, o M2M não precisa ser perfeito no início. Ele precisa ser consistente e acionável (mesma régua para todos) para ranquear prioridades.
3) Como identificar contratos fora do mercado: o método em 6 etapas
A seguir, um fluxo que funciona bem para redes com dezenas a milhares de contratos.
Etapa 1 — Saneamento da base (sem isso, o diagnóstico vira ruído)
Antes de qualquer análise, garanta que você tem:
- valor de aluguel atual, data-base e indexador
- área locada (m²) e tipologia
- vigência, datas de renovação, reajuste, aniversários
- descontos/carências ainda vigentes
- encargos relevantes e regras
- cláusulas críticas (rescisão, multas, garantias, “atípico” vs padrão)
Esse saneamento costuma ser onde o projeto ganha (ou perde) velocidade. Estruturas com tecnologia e metodologia reduzem retrabalho e lead time — especialmente quando há histórico de aditivos e dados espalhados.
Etapa 2 — Calcular o “aluguel efetivo” comparável
Em vez de olhar só “aluguel nominal”, calcule:
- aluguel efetivo mensal (considerando descontos vigentes e escalonamentos)
- R$/m² efetivo
- quando houver aluguel variável, calcule também carga total e sensibilidade (cenários)
Etapa 3 — Definir o referencial de mercado (benchmark)
Você precisa de um “mercado equivalente”:
- por microrregião e tipologia
- com recortes por padrão do imóvel
- preferencialmente com dados reais/observáveis (e não só opinião)
Se você não tem uma base própria, o caminho é montar uma régua mínima com:
- histórico interno (seu portfólio como “mercado”)
- amostras externas (consultorias, laudos, transações comparáveis, anunciados filtrados com critério)
- validação de campo (amostragem por clusters)
(A régua pode começar simples e ir refinando. O importante é ranquear.)
Etapa 4 — Medir o gap vs mercado e classificar
Para cada contrato:
- Gap absoluto: (R$/m² contrato – R$/m² mercado) × m²
- Gap percentual: (contrato ÷ mercado) – 1
- Faixas sugeridas de alerta (heurística):
- Até +5%: normal/monitorar
- +5% a +15%: revisar (prioridade média)
- +15% a +30%: fora do mercado (prioridade alta)
- > +30%: crítico (prioridade máxima)
Etapa 5 — Ajustar por “negociabilidade” e risco (não é só economia)
Aqui entra visão executiva. Um contrato pode ter gap alto, mas ser difícil (ou perigoso) renegociar agora. Crie um “score” que combine:
(A) Valor econômico
- saving potencial anual e no restante da vigência
(B) Timing contratual
- proximidade de renovação e reajuste
- janelas de gatilho (break options, revisional, datas de negociação)
(C) Risco operacional
- criticidade da unidade (faturamento, logística, last-mile, compliance)
- risco de perda do ponto/ruptura
(D) Alavancas disponíveis
- mercado local (vacância, alternativas)
- qualidade do relacionamento com o locador
- possibilidade de contrapartidas (prazo, garantias, melhorias)
Etapa 6 — Montar a fila de renegociação (portfólio → plano tático)
O output não é um relatório bonito. É uma fila objetiva:
- Top 20/50/100 contratos para atacar
- estratégia por cluster (shoppings X rua X galpões X BTS)
- narrativa por tipo de locador (institucional X pessoa física X fundos)
Empresas maduras fazem isso com governança, dashboards e acompanhamento de ponta a ponta, reduzindo lead time e elevando conversão porque a negociação vira um programa, não uma ação isolada.
4) Priorização executiva: um modelo simples de scoring (que funciona)
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Use uma matriz 2×2 para acelerar a decisão:
Eixo X: Impacto (Saving potencial)
- Alto / Baixo
Eixo Y: Probabilidade (Negociabilidade + Timing)
- Alta / Baixa
Quadrantes
- Alto impacto + Alta probabilidade → atacar já (pipeline principal)
- Alto impacto + Baixa probabilidade → preparar (dados, alternativas, plano B)
- Baixo impacto + Alta probabilidade → “quick wins” (limpa base, melhora média)
- Baixo impacto + Baixa probabilidade → monitorar / agrupar por lote
Esse modelo evita o erro comum: gastar energia demais em casos politicamente difíceis e economicamente pequenos.
5) “Sinais de contrato fora do mercado” (checklist prático)
Use como triagem inicial, antes mesmo de ter benchmark perfeito:
- Reajustes acima do padrão por anos (ex.: indexador desfavorável + aditivos)
- R$/m² acima dos pares da mesma microrregião e tipologia
- Contrato antigo sem revisão em região que mudou (degradação ou valorização)
- Condomínio/IPTU desproporcionais vs padrão local
- Descontos vencendo em breve (custo vai “subir sozinho”)
- Multas de rescisão que travam negociação (cláusula atípica)
- Aluguel variável com regra que captura upside, mas não protege downside
- Baixa performance da unidade com custo fixo alto (desalinhamento econômico)
6) Do diagnóstico à mesa de negociação: como transformar M2M em argumento
Uma renegociação de alta taxa de conversão costuma ter 4 pilares:
- Prova (dados)
- Relatório claro: contrato atual vs mercado vs proposta-alvo
- Coerência (tese)
- Por que a revisão faz sentido naquele micromercado (não “porque queremos desconto”)
- Plano de contrapartidas
- Prazo maior, garantias, SLA, melhorias, previsibilidade
- Governança e formalização
- Pipeline, responsáveis, validações e fechamento jurídico
Programas estruturados de renegociação normalmente incluem relatórios de base (aluguéis médios, concentração de reajustes e renovações, comparativos com mercado, diagnósticos) e acompanhamento do início ao fim.
7) O que medir para provar resultado (CFO mode)
Para gestão e prestação de contas, recomendo no mínimo:
- Saving anualizado (run-rate após renegociação)
- Saving total no período negociado
- % redução do custo de ocupação (média e por cluster)
- Lead time por etapa (planejamento → execução → formalização)
- Taxa de conversão (negociações concluídas / iniciadas)
- Cobertura do portfólio (quantos contratos passaram por M2M)
Em modelos de sucesso compartilhado, a remuneração pode ser atrelada à economia gerada, reduzindo risco financeiro do projeto.
Conclusão
Identificar contratos fora do mercado não é “feeling” e não é só uma planilha de aluguel. É um exercício estruturado de market-to-market + governança de portfólio: saneia dados, calcula aluguel efetivo, estabelece uma régua de mercado consistente, mede gap e prioriza com lógica de impacto e probabilidade.
Quando bem feito, isso muda o jogo: você troca renegociações reativas (apagar incêndio) por um programa previsível de captura de economia, com narrativa técnica e controle de execução.




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