Inteligência financeira

IFRS 16 e CPC 06 no aluguel: como o contrato vira passivo no balanço e quais dados definem esse número

Como o CPC 06 (R2) transforma o aluguel em passivo, quais dados do contrato definem esse número e quando reajuste, aditivo e renegociação o mudam.
Tipo de conteúdo
Guia
Data de publicação
15/10/2026
IFRS 16 e CPC 06 no aluguel: os dados que definem o passivo
Paulo Henrique - CEO LocX
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No aluguel, o passivo do balanço é tão bom quanto o cadastro do contrato. A conta é da controladoria; os fatos que entram nela nascem na área imobiliária.

A IFRS 16 é a norma internacional de contabilidade para arrendamentos. No Brasil, ela corresponde ao Pronunciamento Técnico CPC 06 (R2), aplicado desde 1º de janeiro de 2019. Para quem aluga imóveis, a mudança é uma só: o contrato de aluguel deixa de ser apenas despesa do mês e entra no balanço como um ativo de direito de uso e um passivo de arrendamento. O passivo é o valor presente dos aluguéis que ainda serão pagos durante o prazo do arrendamento, descontados pela taxa implícita do contrato ou pela taxa incremental de empréstimo da empresa (item 26). Em aluguel de imóvel, o locatário raramente conhece a taxa implícita, então a incremental é o caminho comum.

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A taxa e o julgamento final são da controladoria. Mas quase todos os outros números que entram no cálculo nascem no contrato e na rotina da área imobiliária: prazo, renovações prováveis, data de início, carências, índice, data de reajuste e aditivos. Quando esses dados chegam errados ou atrasados, a contabilidade calcula certo sobre a base errada.

O que muda no balanço de quem aluga?

Antes de 2019, o aluguel de um imóvel era, em regra, despesa operacional reconhecida mês a mês. Com o CPC 06 (R2), o locatário reconhece:

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  • ativo de direito de uso, que é depreciado ao longo do prazo;
  • passivo de arrendamento, que gera juros e é reduzido a cada pagamento.

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Três efeitos aparecem em qualquer empresa com muitos contratos:

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  1. A dívida aparece. O compromisso de aluguel passa a ser passivo no balanço.
  2. O EBITDA sobe. O aluguel sai da despesa operacional e vira depreciação e juros, que ficam abaixo do EBITDA.
  3. A despesa se concentra no início. Os juros são maiores quando o saldo do passivo é maior, então a despesa total dos primeiros anos supera o aluguel pago.

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Há duas isenções que a empresa pode adotar (item 5): arrendamentos de curto prazo, com 12 meses ou menos e sem opção de compra, e arrendamentos de ativos de baixo valor. Os exemplos de baixo valor no próprio pronunciamento são computadores, tablets, telefones e pequenos móveis de escritório (item B8), o que deixa os imóveis de fora.

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Como se calcula o passivo de arrendamento?

Um exemplo hipotético, para mostrar a mecânica:

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PremissaValor
Aluguel mensalR$ 50.000
Prazo restante60 meses
Pagamentono fim de cada mês
Taxa incremental de empréstimo1,00% ao mês (12,68% ao ano)
Custos iniciais e incentivosnenhum

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ResultadoValor
Passivo de arrendamento inicialR$ 2.247.751,92
Aluguel pago no primeiro anoR$ 600.000,00
Depreciação do direito de uso no primeiro ano (linear)R$ 449.550,38
Juros do passivo no primeiro anoR$ 250.946,05
Despesa total no primeiro anoR$ 700.496,43

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No primeiro ano, a empresa paga R$ 600 mil de aluguel e reconhece R$ 700 mil de despesa. A diferença se inverte nos anos finais.

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Como calculamos. Valor presente de 60 pagamentos mensais iguais, vencidos no fim de cada mês, à taxa de 1% ao mês: R$ 50.000 × [1 - 1,01^(-60)] ÷ 0,01. Direito de uso igual ao passivo inicial, depreciado em linha reta por 60 meses. Juros calculados mês a mês sobre o saldo do passivo. Exemplo ilustrativo, sem tributos e sem reajuste no primeiro ano.

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Quais dados do contrato definem o passivo?

A tabela liga cada dado do contrato ao item do CPC 06 (R2) que o usa. A última coluna é a nossa leitura de onde a informação costuma estar numa rede com muitos contratos, e não uma regra da norma.

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Dado do contratoItem do CPC 06 (R2)Se estiver erradoOnde a informação costuma estar
Prazo não cancelável18O passivo inteiro sai erradoContratos
Opções de renovação ou de saída que a empresa está "razoavelmente certa" de exercer18 a 20; critérios em B37 a B40Prazo curto ou longo demaisÁrea imobiliária e expansão, que conhecem o plano para o ponto
Data de início (quando o imóvel foi disponibilizado, não quando o contrato foi assinado)Apêndice AO cálculo começa no mês erradoObras, implantação e contratos
Aluguel fixo, carências e descontos27(a)Carência esquecida infla o passivoContratos e aditivos
Índice de reajuste e data de aniversário27(b), 28 e 42(b)Remensuração atrasada ou não feitaContratos
Aluguel percentual sobre vendas27 e 38(b)Se entrar no passivo, superestima a dívida; ele vai para o resultado quando ocorreContratos de shopping
Multa de rescisão, quando o prazo considera a saída27(e)Saída planejada sem a multa no cálculoÁrea imobiliária
Taxa incremental de empréstimo26 e Apêndice ADesconto errado em todos os contratos de uma vezTesouraria e controladoria
Aditivos assinados44 a 46Modificação não contabilizadaContratos e jurídico
Deslize a tabela para o lado para ver todas as colunas.

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Um controller pode objetar, com razão, que a taxa pesa mais do que qualquer cadastro: errar a taxa incremental mexe na carteira inteira, enquanto um reajuste esquecido mexe em um contrato. E que a conciliação do contas a pagar mostra a diferença no pagamento do mês seguinte. As duas coisas são verdade. O que a conciliação não pega é o que não passa pelo pagamento: uma carência ainda não lançada, uma opção de renovação que deixou de ser provável, um aditivo assinado e guardado numa pasta. Esses erros mudam o fluxo futuro inteiro, e não só a parcela do mês.

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[INSUMO DO PAULO: dos dados da tabela, qual costuma faltar quando um cliente chega com a carteira em planilha? O que isso causou no fechamento?]

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Quando o passivo precisa ser recalculado?

O passivo não é calculado uma vez. Ele é remensurado sempre que um fato do contrato muda os pagamentos ou o prazo.

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Evento no contratoO que o CPC 06 (R2) pedeTaxa de desconto
Reajuste por índice (IGP-M, IPCA)Remensurar quando o novo valor passa a ser pago, com os pagamentos revisados até o fim do prazo (itens 42(b) e 43)A mesma de antes
Evento significativo, sob controle da empresa, que muda a certeza de renovar ou de sairRemensurar com o novo prazo (itens 20, 40 e 41)Revisada, na data da reavaliação
Aditivo que muda valor ou prazoTratar como modificação do arrendamento e ajustar o direito de uso (itens 45 e 46(b))Revisada, na data de vigência da modificação
Aditivo que devolve áreaBaixar parte do direito de uso e reconhecer ganho ou perda no resultado (item 46(a))Revisada
Aditivo que acrescenta área por preço compatível com o de mercadoContabilizar como arrendamento separado (item 44)A do novo arrendamento

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No exemplo acima, um reajuste de 4,22% no 13º mês leva o aluguel a R$ 52.110 e aumenta o passivo de R$ 1.898.697,97 para R$ 1.978.823,03, uma remensuração de R$ 80.125,05 lançada contra o direito de uso.

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Agora multiplique pela carteira. Uma rede com 200 contratos e aniversários espalhados ao longo do ano tem, em média, quase quatro reajustes por semana. Cada um é um evento contábil com data certa, que precisa chegar à contabilidade com o novo valor e o novo prazo restante.

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E quando o aluguel é renegociado?

Renegociação é modificação do arrendamento. Ela é remensurada com uma taxa de desconto nova, e o efeito no balanço pode surpreender quem olha só o aluguel mensal.

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Exemplo hipotético de IFRS 16: no primeiro ano, R$ 600 mil de aluguel pago e R$ 700 mil de despesa; renegociação com 15% de redução aumenta o passivo em R$ 450 mil se estender o prazo

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Ainda no exemplo, imagine que no 25º mês, com 36 meses restantes, a empresa troca o aluguel de R$ 52.110 por R$ 44.293,50 (15% menos) e, em troca, passa o prazo restante de 36 para 60 meses, com nova taxa de 0,95% ao mês. O aluguel mensal cai, mas o passivo sobe de R$ 1.568.902,09 para R$ 2.018.622,56, porque a empresa assumiu mais dois anos de pagamentos. Se a mesma redução viesse sem extensão de prazo, o passivo cairia para R$ 1.345.143,08.

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Nenhuma das duas é melhor por definição. Estender o prazo pode ser exatamente o que a rede quer para um ponto que vende bem. Mas a controladoria precisa ver a conta antes da assinatura, e não no fechamento, porque o mesmo acordo que reduz a despesa mensal aumenta a dívida reportada.

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Fluxo nominal ou real: o ponto das companhias abertas

Este ponto vale para companhias abertas. O CPC 06 (R2) mede os pagamentos por índice sem projetar inflação futura (na mensuração inicial, pelo índice da data de início; depois, pelo valor vigente a cada remensuração) e os desconta por uma taxa nominal. Em 2019, as áreas técnicas da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) apontaram que essa combinação distorce o resultado num país com inflação relevante. No Ofício-Circular CVM/SNC/SEP nº 02/2019, esclarecido no Ofício-Circular nº 01/2020, recomendaram o modelo de fluxo nominal com taxa nominal: projetar a inflação esperada nos pagamentos e descontá-los pela taxa nominal.

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Adotar esse modelo é afastar-se do CPC 06 (R2) com base no CPC 26, itens 19 e 20, com as divulgações correspondentes. A companhia que segue o CPC 06 (R2) deve divulgar em nota explicativa, quando a diferença for relevante, o passivo e as despesas pelo modelo recomendado, ou os dados mínimos para o leitor chegar a eles. Para a área de contratos de uma companhia aberta, a consequência prática é guardar o índice e o histórico de reajustes de cada contrato de forma que o cálculo possa ser refeito pelos dois modelos.

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Planilha dá conta?

Dá, enquanto a carteira é pequena e os contratos mudam pouco. O problema não é a fórmula de valor presente, que qualquer planilha faz. É manter, para cada contrato, o prazo com as opções, a data de início, o índice, o aniversário, as carências e o histórico de aditivos, e fazer cada mudança chegar à contabilidade no mês certo. Contrato mal cadastrado vira número errado no balanço.

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Antes de discutir ferramenta, vale um teste: escolha cinco contratos ao acaso e confira se o prazo, o índice, a carência e a data do último reajuste registrados batem com o contrato e o último aditivo assinados. Divergência não significa erro relevante no balanço. Significa que o cálculo está apoiado num cadastro que ninguém confere, e é aí que o erro relevante aparece um dia.

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Perguntas frequentes

O que é IFRS 16?

É a norma internacional de contabilidade para arrendamentos, em vigor desde 2019. Ela exige que o locatário reconheça no balanço um ativo de direito de uso e um passivo de arrendamento para a maioria dos contratos de aluguel.

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Qual é a diferença entre IFRS 16 e CPC 06?

O CPC 06 (R2) é o pronunciamento brasileiro correlato à IFRS 16. O conteúdo é o mesmo; o CPC 06 (R2) é o texto aplicado no Brasil, aprovado pelos reguladores, como a CVM.

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Quem precisa aplicar o CPC 06 (R2)?

As entidades que seguem os pronunciamentos completos do CPC, o que inclui as companhias abertas e as sociedades de grande porte, que não podem usar a norma para pequenas e médias empresas. As PMEs que adotam essa norma continuam tratando o aluguel operacional como despesa. A versão internacional para PMEs, revista em 2025, manteve essa diferença.

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Todo contrato de aluguel entra no IFRS 16?

Não. Ficam fora, se a empresa optar pela isenção, os arrendamentos de curto prazo (12 meses ou menos, sem opção de compra) e os de ativos de baixo valor (item 5).

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Como calcular o passivo de arrendamento?

É o valor presente dos aluguéis que ainda serão pagos durante o prazo do arrendamento, descontados pela taxa implícita do contrato ou, se ela não puder ser determinada, pela taxa incremental de empréstimo do locatário (item 26).

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O reajuste pelo IGP-M ou pelo IPCA muda o passivo?

Muda. Quando o novo valor passa a ser pago, o passivo é remensurado com os pagamentos revisados até o fim do prazo, usando a mesma taxa de desconto (itens 42(b) e 43).

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Aluguel percentual sobre vendas entra no passivo?

Não. O passivo inclui pagamentos variáveis ligados a índice ou taxa. O aluguel calculado sobre as vendas é reconhecido no resultado do período em que as vendas acontecem (itens 27 e 38(b)).

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Um aditivo de contrato muda o IFRS 16?

Sim. Um aditivo que altera valor ou prazo é uma modificação do arrendamento e é remensurado com taxa de desconto revisada (itens 45 e 46). Se apenas acrescenta área por preço compatível com o de mercado, é um arrendamento separado (item 44).

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